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O Jardim

Um jardim que ninguém plantou.

Existe um lugar onde a noite nunca fecha de todo. Uma aurora fica pendurada baixa sobre ele, e embaixo dela as criaturas se comportam de um jeito que não se vê em nenhum outro canto.

  1. Capítulo 01

    A luz que mistura

    A aurora do Jardim não serve só para iluminar. Ela desce baixo, encosta nas folhas e atravessa os bichos que dormem embaixo dela.

    Ninguém sabe explicar direito o que ela faz. Só se sabe o resultado: no Jardim, duas criaturas quaisquer conseguem ter um filhote. Uma abelha e um besouro. Uma joaninha e uma aranha. E quando os próximos aparecerem por aqui, valerá o mesmo para eles.

    Em qualquer outro lugar isso seria impossível. Aqui ninguém acha estranho.

  2. Capítulo 02

    O que fica guardado

    Todo bicho do Jardim carrega mais do que mostra. Junto com a cor das asas que ele tem, vem também a cor das asas que a bisavó dele teve, e que ele nunca vai usar.

    Os antigos do Jardim diziam que isso é memória, não genética. Que a criatura guarda uma lembrança da própria família e passa adiante sem nunca abrir.

    De vez em quando a lembrança escapa. Nasce um filhote com uma marca que ninguém no ninho tinha, vinda de três gerações atrás, e o Jardim inteiro fica sabendo.

  3. Capítulo 03

    Os ovos não contam nada

    Todos os ovos do Jardim são brancos. Do mesmo branco, do mesmo tamanho, com a mesma casca lisa.

    O único sinal é um símbolo pequeno na frente, que diz apenas de que família vem o filhote. Nada além disso. Não dá para saber a cor, nem o desenho, nem o que ele carrega guardado.

    Dizem que a aurora faz de propósito. Que um ovo que entrega o que tem dentro estraga a única coisa boa de esperar.

  4. Capítulo 04

    Quem chega depois

    Os insetos foram os primeiros a aparecer sob a aurora, e por enquanto são os únicos.

    Mas o Jardim não tem cerca. Já se ouve coisa batendo asa alto demais para ser abelha, e apareceram pegadas fundas no barro, de bicho grande demais para ser inseto. Vem mais gente por aí.

    Quando chegarem, não vão formar grupos separados. Vão entrar no mesmo jardim, sob a mesma luz, e vão se misturar com quem já estava aqui.

  5. Capítulo 05

    Alguém precisa anotar

    Um jardim onde tudo cruza com tudo vira bagunça rápido. Em poucas gerações ninguém lembra quem veio de quem.

    Por isso cada criatura nasce com um nome curto e próprio, e cada nascimento fica registrado. Quem foi a mãe, quem foi o pai, quem vieram antes deles.

    É um trabalho chato e é o mais importante daqui. Sem ele, uma linhagem bonita seria só sorte que ninguém consegue provar.

E como isso funciona na prática

A história é bonita, mas por trás dela tem regra clara: o que cada criatura mostra, o que ela guarda, e o que ela passa para o filhote.